terça-feira, 30 de novembro de 2010

Manguel em pedaço

“Agora tenho em comum com aquele Bevilacqua, se não o corpo esquálido, decerto o tom grisalho. E eu também, inconcebivelmente, envelheci, fiquei barrigudo; já ele continua tendo a idade de quando o conheci, aquela que hoje ainda chamamos de idade jovem e que na época se chamava de madura. Pois bem, eu continuei a leitura daquela narrativa que iniciamos juntos, ou que Bevilacqua iniciou numa Argentina que já não é nossa. Conheço os capítulos que sucederam sua morte (ia dizer “desaparecimento”, mas essa palavra, meu caro Terradillos, está proibida para nós). Ele não, claro. Quero dizer que sua história, essa que ele teceu e desteceu tantas vezes, agora é minha. Eu decidirei seu destino, eu darei sentido a seu itinerário. Essa é a missão do sobrevivente: contar, recriar, inventar, por que não?, a história alheia. Pegue um punhado qualquer de fatos da vida de um homem, distribua-os como quiser, e você terá ali um certo personagem, de uma verossimilhança incontestável. Distribua-os de maneira um tantinho diferente e, caramba!, o personagem mudou, é outro, mas igualmente verdadeiro. Tudo o que posso dizer é que vou lhe contar a vida de Alejandro Bevilacqua com o mesmo cuidado com que eu gostaria que o meu narrador, chegada a hora, relatasse a minha.” (p.16-17)

Trecho de Todos os Homens são Mentirosos (Cia das Letras), de Alberto Manguel

Buraco da rã

*Aleksandro Costa Nunes

Nasci e cresci no Buraco da Rã. Aqui já foi verde antes das chuvas.

Hoje as casas são incrustadas nas pedras ou forçosamente construídas em cima delas.

E, neste caso, têm a forma de cuias emborcadas salpicadas de terra.

Toda vez que o chão escurece é sinal de que o Buraco em pouco tempo estará gotejando e sem demora subirá uma chuva barrenta; sujando casas; arrancando árvores; a caminho da cova tenebrosa que cobre nossas cabeças.

Em dias terríveis como esse, me encerro no quarto e me intrigo com o nome do lugar. Deduzo, por fim, que buraco mesmo é esse que engole a lama que sobe e recebe as almas que choram.

*Do blog Retalho de Prosa

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"XupaMe" spring love


É a era dos DJ's, todo mundo é um, qualquer um "toca" em qualquer festcheenha e óbvio que o vocabulário da rapeize iniciada invadiu a pista. Não precisa disquejoká pra saber o que é sampler, set list, warm up e coisa e tal.

Agora, mashup é uma palavra que não dá pra soletrar em público, fala a verdade. Veja se não tem ninguém por perto e repita em alto som, cuidando da pronúncia gringa: mashup. Dá até pra fazer beicinho, que sexy.

O bagulho pode ser mais indecente ainda dependendo das cabecinhas envolvidas nessa shupança. Olha o que esse ser teve a coragem de fazer: mashupar Serge Gainsbourg com MCFornalha, cruzar Je t'aime Moi Non Plus com Spring Love. Merrrmão, o que era som de motel virou funk de motel de laje.

Nasce um classy dos sets globalizados. Je t'aime spring love, com katchyguria:

Com técnica própria, Sambatown vai a Cuba

Update: pulei janeiro todo, então somente agora (04/fev's/11) conto aqui, atrasadamente, que o bichinho aqui de baixo ganhou a paçoca lá em Cuba. Bacana, né?


SAMBATOWN from cadux.com on Vimeo.



O curta de animação Sambatown, que ganhou corpo no estúdio Usinanimada, em Ribeirão Preto, vai concorrer no festival de cinema latino americano de Havana, em dezembro. Entre os 28 selecionados para a categoria, há mais três brasileiros (veja a lista aqui). Com temática inspirada no triângulo Oxum-Iansã-Xangô, do candomblé, o curta tem como diferencial a técnica “forjada” em solo ribeirão-pretano.  

O projeto foi engendrado pelo diretor Cadu Macedo (Cadux) em 2001, a partir de um pôster que já trazia os personagens e até o nome, Sambatown. Cadu chamou Rogério Shareid, com quem fez faculdade, para a direção de animação. Shareid já tinha experiência em produção autoral e educativa, enquanto Cadu fez carreira em publicidade e vídeoclipe.

A técnica que a equipe desenvolveu acelera a exibição de unidades de desenhos, intercalando a arte tradicional e a executada no computador, para atender a um pedido de Cadu. A exigência era de movimentos delicados e 30 frames por segundo (fps), mesma velocidade de 3D, embora o estúdio tenha usado 2D, que normalmente exibe 24 fps. “O filme que vemos no cinema tem 24 fps. Acredito que seja a primeira vez que a técnica foi usada dessa maneira no país, deu um trabalho do cão”, conta Shareid.

Ele recorreu a passistas da escola de samba Tradição do Ipiranga para gravar os movimentos de porta-bandeira e mestre-sala incluídos na narrativa. Fez o mesmo com alguns atores para estudar a expressividade dos gestos.



À primeira vista, é possível remeter as cenas à capoeira, mas Shareid minimiza a influência da luta, que estaria restrita apenas ao “inconsciente”. “Não queríamos trazir isso à tona tão marcado”. Na lista de referências, aliás, entrou o samba-rock, diz ele.

Apesar do nome e do mix de gêneros, a trilha musical não estaria ligada ao disco Satolep Sambatown, do gaúcho Vitor Ramil com o percussionista Marcos Suzano. “A trilha é o maestro Laércio de Freitas, bem mais velhinho que o Vitor”, brinca.

Acompanhando o candomblé e o samba-rock, o cenário não poderia escapar de influências visuais do Rio de Janeiro, Salvador e Havana. As duas últimas cidades teriam entrado no roteiro de pesquisa de Cadu, que também seria admirador do pintor Carybé, famoso por obras inspiradas nos rituais da cultura afro-brasileira. “Essa vivência, acredito, foi o argumento final para lapidar a produção.”

Sambatown foi finalizado recentemente e, além de Havana, pode seguir para outros festivais, de acordo com as pretensões da equipe.  Depois disso, eles devem negociar a exibição com emissoras.


Pílulas de Bula

A revista Bula já é boa, o perfil no twitter, então, é uma cereja atrás da outra. A seguir, várias "curtas" contribuições do @revistabula para melhorar o nível cultural da galere:

Trezentos discos brasileiros raros para baixar gratuitamente:

Livros para download gratuito (já soube que o pessoal que mantém os arquivos precisa de contribuições voluntárias)

Diversãozinha rápida e barata do dia:
Clique em OUVIR, no lado direito da tela do Google translate que abrir

Episódios de Os Simpsons pra baixar "de grátis" herrrr (pra treinar seu inglês, ha!)




Cinema por Estado

Hoje tem cópia lavada, mas nem por isso descarada, porque possui crédito. Reproduzo aqui um post super bacana do Almir de Freitas (acesse aqui).

A exemplo de um mapa norte-americano com destaques cinematográficos por estado, Almir distribuiu boas produções - e boas direções - pelas UF's do Brasil. A ideia era associar cada filme ao cenário onde foi gravado. Ele explica mais critérios abaixo.



"Semana passada, postei (aqui) o mapa feito por um redditer que associava cada Estado americano a um filme. O cara levou pau coast to coast, mas mesmo assim resolvi copiar a ideia, aplicando-a ao Brasil (clique na imagem para ampliar). E, se era para copiar, fiz serviço completo: ideia, lay-out, fonte, cores. A única coisa irreproduzível foi, naturalmente, a abundância de filmes para cada região. Aqui, tive de  tomar algumas liberdades para contemplar todos os Estados.  Abusei, por exemplo, dos documentários — uns bons mesmo (Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho), uns interessantes (Mensageiras da Luz, de Evaldo Mocarzel), outros altamente suspeitos. Aceito sugestões.

E peço as cidadãos dos Estados que não se ofendam com esta ou aquela escolha — num determinado momento, optei por fazer uma seleção que resultasse num bom time de diretores. No geral, até que deu. Além dos dois citados acima, estão presentes no mapa Hector Babenco, Fernando Meirelles, Jorge Furtado, Rogério Sganzerla, Felipe Hirsch, Luís Sérgio Person, Beto Brant, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos etc…

Até Jece Valadão tem."

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

hermanitos muy buenos

Gostei muito desses caras de La Plata: El Mató un Policía Motorizado.

Un link para bajar los hermanos acá (lo primer álbum, Navidad).

Más un para bajar.

Ehhh! Lo ultimo, que tiene la musica abajo: Dia de los muertos



vídeo via @jocaterron

Según Néstor Venegas, "personas buenas" son los que llamamos de "gostosos" acá. Bien, bien.

Le gusta mi portuñol?

nunca mais saia sem fazer amor

up date:
O cara tem até perfil no twitter (@Faz_Amor, ele me mandou um tuíte, ha), mas acho que é algum fake querendo pegar onda em cima desse vídeo aí.
E o cenário desse vídeo? Um pretenso matinho.

"Quando você faz amor, você está mais perto do próximo e de você mesmo"
"Faz amor todo dia, assim que você puder"
"Porra, no Brasil a gente aprende a fazer amor, simplesmente amor é brasileiro"
"Antes de ir ao cinema, à igreja, faz amor"
"Se você quer ter sorte na vida, faz amor"
"Eu faço, por que você não? Somos iguais"




"E aí, vai querer?"

via @cassioparsons

Vaccarini ganha documentário



Não foi o primeiro, não será o último a se apaixonar por um homem das artes. Mas levou o encantamento adiante. O jornalista Hossame Nakamura, que se fascinou pela vida e obra do artista plástico Bassano Vaccarini (1914-2002) ainda no início da faculdade, em 1996, está finalizando o documentário Todas Dimensões de Bassano Vaccarini - Dentro de Um Realismo Mágico.

O vídeo aborda a produção de Vaccarini até a sua morte, em 2002, a partir de depoimentos e arquivos de parentes e amigos. Há imagens que o próprio artista gravou, brincando com uma câmera, quando a saúde já estava abalada pelo Alzheimer.

O italiano Vaccarini deixou a Itália em 1946 para realizar uma exposição com outros compatriotas no Brasil. Acabou ficando em São Paulo, onde integrou a primeira geração de cenógrafos do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e o corpo docente da FAU/USP. Transferiu-se em 1956 para Ribeirão Preto, cidade que já conhecia de um postal recebido na Itália. A mudança partiur de um convite do prefeito Costábile Romano para produzir obras em comemoração ao centenário do município.

No interior, chegou a fundar o curso de artes plásticas na Unaerp, instituição que mantém obras dele espalhadas pelo campus. Foi por meio delas que Hossame se interessou pelo artista e quis retratá-lo em seu trabalho de fotografia, no curso de Jornalismo, há mais de dez anos. “Não sei por que encanei nele, acho que por ter sido uma pessoa bonita, generosa, ética”, diz o diretor.

Vaccarini mal falava, se comunicava com o estudante com movimentos e expressões faciais.

Hossame desengavetou a ideia do documentário no início do ano, ao ser selecionado por um edital da prefeitura de Ribeirão, que destinou R$ 20 mil ao projeto. Ele contou com a produção de Fernanda Marx e Alessandra Amantea. Segundo o jornalista, a Secretaria Municipal de Cultura ainda não comunicou a data de estréia. Posteriormente, o material será exibido em escolas públicas do município.

Arte
Como a maioria dos artistas, Bassano tinha de dar aulas para sustentar a família. Pôde se dedicar integralmente à arte ao se aposentar em função de uma isquemia, no início da década de 80. “Apesar do problema de saúde, ficou feliz. Ele produzia intensamente.” De acordo com a crítica, não são as temáticas, mas a forma se sobressai nos trabalhos dele.

A família acredita que Vaccarini já tinha Alzheimer quando executou as famosas esculturas do parque Maurílio Biagi, em Ribeirão, em 1996. Em seguida ele se mudou para Altinópolis, onde fez praças e um teatro de arena, a partir de suas esculturas. “Ele trabalhava mais de 16 horas por dia.”

Posicionamento
Após a mudança para o interior, ele ainda era chamado para retornar ao teatro, na capital. Questionado pelo agitador cultural Fernando Kaxassa por que escolheu Ribeirão, ele encaminhava a resposta poeticamente. “Você, que gosta de cinema, sabe disso. É a luz daqui (que me cativou).”

Vaccarini era comunista engajado. “Tinha a postura de que o artista não deve viver apenas para a arte, mas para o social”, diz o diretor de teatro Magno Bucci. O historiador e escritor Julio Chiavennato e o artista plástico Dante Veloni também estão entre os entrevistados.

No documentário, há imagens de Vaccarini andando de bicicleta, próximo a uma obra, em Altinópolis. “Tenho 80 anos e me sinto criança; é sempre criança, sabendo a verdade”, dizia na gravação, feita em 1994.


Na primeira e na última imagens, Vaccarini fazia ainda alguns trabalhos, como a guache em que assina (fotos: Hossame Nakamura). Ao meio, Hossame, Fernanda e Alessandra, ao lado de uma obra exposta no pátio externo da Casa da Cultura, em Ribeirão Preto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

caraminhola

Queria dar na sua cabeça
que nem flor no mato
igual mato em ribanceira







Foto do telhado da sala de imprensa da Flip, em Paraty.

robinhoodização com Macca

E eis que colocaram na rede PRA BAIXAR o show do Paul McCartney no Morumbi.

Cartas de amor não enviadas

Cartas de amor enviadas

Em frente à capela do século 19, mirava a torre, esperava o sino dobrar, em vão. De cima do muro de pedras, balançava os dedos e ciscava os cães com assobios rachados. Nada diluía o peso de segurar aquele verde tão perto do rosto. Buscava ao lado, no mar, um movimento que aliviasse o peito.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

guardarei-te

"Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado"
Antonio Cícero, na Balada Literária 2010

more delinquêncy

Seguindo no mood total procrastinação, achei (oh, foi sem querer!) o link pra baixar o novo single da Adele, aqui ó.
Achei bem bom o vocal nessa faixa, Rolling in to The Deep. A letra é daquelas mezzo-melosas que agradam a maioria, combinando uma febre de amor aqui e uma promessa de salto no escuro ali, mas tudo bem, passa porque ainda consegue ser fofa. 
É inevitável a comparação do estilo com o de Amy Winehouse, mas Adele canta bem e mostra uma diferença, vai.
A inglesinha, que tem pouco mais de 20 anos, deve laçar seu segundo disco no próximo ano.

Abaixo, o vídeo do single.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Delinquência do dia


Clique aqui para baixar o álbum Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, do Otto.

O arquivo é até "velho", foi lançado no ano passado, mas vai ser sempre atual. Muito antes de Gregor Samsa que o povo acorda assim.

Kafka não dormia, passava a noite escrevendo, acho que, também, para evitar as manhãs. Foi do início de A Metamorfose que Otto retirou o nome do disco.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

não

Uma estratégia para Bolaño

Foto: Francisco Costa Lima

Vá a uma mesa-redonda e tenha um orgasmo. Tudo bem que não chega a ser orgástica, mas a performance Los Críticos También Lloran brinca habilmente com o sonífero formato dos simpósios e debates formais. E, como brincadeiras bem conduzidas podem ser excitantes, o texto do espanhol Marc Caellas em homenagem ao escritor chileno Roberto Bolaño consegue chegar ao ponto.


A montagem integrou a programação da Balada Literária, em São Paulo, no último final de semana. O texto é baseado no romance póstumo 2666, de Bolaño, no trecho em que quatro escritores aficionados por literatura alemã partem em busca do oculto autor Benno Von Archimboldi.


A cereja de Caellas é dirigir escritores de verdade em vez de atores. Os venezuelanos José Tomás Angola e Leo Felipe Campos, a colombiana Margarita Posada e o espanhol Jorge Carrión se prestam ao delicioso papel e o efeito é o já descrito nas primeiras linhas.


No Teatro da Vila, onde fizeram Los Críticos... no sábado, a estratégia começou antes mesmo da apresentação, com os “atores” conversando lá fora, na entrada do prédio, enquanto o público chegava.


Incautos podem duvidar se todo o exposto é verídico ou devaneio – o que também é excitante. Uma mulher chegou a perguntar se aquilo tudo era verdade. Mas aí eu também duvido de que a participação dela tenha sido espontânea. Pode muito bem ter sido mais um ato estratégico na homenagem a Bolaño.


Eles se apresentam hoje no Instituto Cervantes de Botafogo, no Rio de Janeiro, às 19h.


Update:

Separados pelo nascimento
E não é que o Caellas (fotos menores, à dir.), diretor de Los Críticos..., é a fuça do Bolãno (à esq.)?

puta, coitado do Bolaño tá revirando no caixão. Foi só com essa foto, não puxa meu pé à noite, não.

Mix dos Campos na Balada Literária

O set da Balada Literária foi imperdível, este ano. Vou postar uns goles, começando pelo mix literomusical familiar entre o poeta Augusto de Campos e o filho Cid Campos.





Livro brasileiro de foras

A menina escreve errado,
bobinha.
Estoura o virabrequim,
vira disléxica,
os miolos passam ao líquido,
sopa de letrinhas.





Confissão de um país analfabeto: ontem eu escrevi Bolaños, em vez de Bolãno. O pequeno texto, no Facebook, era uma recomendação positiva sobre a montagem Los Críticos También Lloran, em homenagem ao escritor chileno Roberto Bolaño. O outro, com "s", era o Chaves da vila, aquele mesmo do SBT. Dio santo.

domingo, 21 de novembro de 2010

Arrebentação

O rio pegou a carga, saiu correndo, foi dar no mar. Carregou as pedras que não levo e as botou para quebrar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ravel na Terra do Nunca

Adriano acaba de se tornar órfão e as indefinições sobre seu destino desenham Bolero de Ravel (Global Editora), novo romance de Menalton Braff, vencedor do Jabuti em 2000 pelos contos À Sombra dos Ciprestes.

O protagonista não é um menor disputado por familiares ou internado pela Justiça em um abrigo. Adriano tem 35 anos e muitas semelhanças com os contemporâneos “Peter Pan's”, aqueles que parecem não querer crescer.

Eles inflaram as estatísticas de jovens adultos solteiros nos últimos 15 anos, aparecem às pencas em reportagens de comportamento, lotam as baladas ao lado de adolescentes e provavelmente filam a bóia de domingo ao seu lado, na casa da sua avó, querido leitor. “Eu conheço pelo menos uns dez casos assim, de gente que nem saiu da residência dos pais”, enumera o autor.

Acha o primo ou o tio solteirão engraçados? O personagem de Bolero, entretanto, possui contornos psicológicos que se agravam ante a perda de quem o sustentava. Filho mais velho, grudado à mãe, não quis estudar, trabalhar ou engatar um relacionamento amoroso sério. “É um desiludido, inútil e ocioso. Uma de suas frases é ‘não posso acreditar na vitória se existe a morte’.”

Ao mesmo tempo, a irmã mais nova, que se projetou no pai, um advogado bem sucedido, ganhou a vida como as revistas de carreiras e negócios ditam ser o ideal. Se no passado eles até possuíam afinidades, a distância que as diferenças solidificaram os coloca em lados extremos após o acidente que mata os pais. A dúvida sobre quem vai arcar com Adriano, a partir de então, deflagra o conflito.

Neverland
Menalton avalia que o crescimento do poder de consumo favoreceu o retardamento de aspectos adolescentes sobre esses “adultescentes”.

Cita que, se há poucas décadas a simples compra de uma peça de roupa exigia esforço econômico da maioria da população, atualmente a atitude se banalizou e é possível comprar uma calça nova por semana sem dificuldades.

“Os pais também estão mais favoráveis a bancar os filhos sem reclamar.” A priorização dos estudos e do trabalho é outro fator, apontam os especialistas.

O escritor diz acreditar que os ideais se moldaram à preservação da própria sociedade de consumo, o que geraria perda de sentido e perspectivas entre os jovens. “Hoje parece que a luta é pelo consumo, não há mais o posicionamento sobre ideias ou partidos, por exemplo.”

Estilo
A construção dos personagens tem relação com a narrativa de fluxo de consciência com que Menalton escreveu o romance. O estilo consagrado por escritores como James Joyce e Virginia Woolf é considerado difícil e consiste em idas e vindas na memória dos personagens.

“Baseei-me numa afirmação do Freud de que em todo momento estamos vivendo tudo o que já vivenciamos, desde o nascimento.”

Freud e o tipo de narrativa fazem do título do romance, a célebre composição de Maurice Ravel, uma escolha “natural”. A canção tem um ritmo único e a melodia repetitiva, deixando espaço para os eventos se destacarem em seus loopings na partitura. Nada de coincidência com a vida dos dois irmãos. “O tema principal prossegue, mas de acordo com as cenas que eles vão revivendo, ele some, cresce e vai evoluindo até um final apoteótico.”

Mais Menalton
Menalton Braff lê obras de Sigmund Freud há anos, o que sempre lhe rendeu recursos para conceber seus personagens. No entanto, ele avisa que não há espécie alguma de solução para o caso de Adriano. “Sou só romancista; discutir o caminho seria para um psicólogo.”

Um jornalista de televisão já ficou bravo com Menalton, numa entrevista, porque o autor não apontava uma solução para o problema abordado num romance que lançava na ocasião. “As pessoas estão tanto na onda de autoajuda, que se incomodam com a literatura. Autoajuda é que, entre aspas, se propõe a oferecer receitas.”

Além de Bolero de Ravel, o escritor tem dois romances e uma coletânea de contos prontos na gaveta. O último lançamento do autor foi Moça com Chapéu de Palha (Língua Geral), em outubro de 2009.

Leia ainda
Menalton toma café

Norah Jones pra quem não tem ainda

Muita gente comentou que não tinha nada da Norah Jones - ela cantou em SP no domingo.
Eis aqui um endereço para baixar o último álbum dela, The Fall.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Acordo com o acaso





Se coubesse palpite,
queria morrer feliz,
não noutro dia.
Deveria ser sob descarga elétrica,
daquela que se imagina
"é pra toda vida".
Poderia selar
acordo com o acaso:
só morro enquanto estiver lá.
Se me encontrar ainda sob escombros,
será toda sua a injustiça.



Os bombeiros nem sabiam do menino ao fundo, quando tentavam controlar o incêndio numa residência da periferia de Ribeirão Preto. Foram avisados pela repórter fotográfica Joyce Cury(ACidade), que o "descobriu" no meio da cena, durante o clique.

friend'squema



Da roupa curta ele não implica,
ri do palavrão inflacionado,
na calçada me segura infame.
Ela acha lindo eu me acabar na pista,
suspende meu cabelo no vaso,
faz ponta no vexame.
E ainda dizem que eu valho.
Vão do vinho ao vinagre,
testemunham glórias,
o caralho.
Colo quentinho,
cafuné mais gordo d'Oeste,
beijo no alvo,
sussurro no ouvido.
Não tenho moral com eles,
não preciso disso.


This is a little tribute for some very important people.
Uma trilha para o momento, por favor:


Agora Wagnão


y una pepita del rey





Never more the same, never.

sábado, 13 de novembro de 2010

todo cambia always, nêgo

York, querido,
a floresta tem caminhos, temos os que percorremos.
Agora são só paisagens.
Há males que custam a chegar - a morte,
inevitavelmente, decisão ou imposição.
Haverá mais escolhas. Se não este,
um outro a explorar. Coragem.
A história não passa, tudo muda.
Hanna

Nada passa, tudo muda #remember

Qdo vc for, a Europa ficará menor

"Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo;

se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua;

a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti."

John Donne, cheio de amor pra dar. Talvez seja o trecho mais famoso que escreveu. Parte da fama deve-se a Ernest Hemingway, pelo livro Por quem os sinos dobram.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

você faça tudo, mas me faça o favor

Honey,

se eu não tivesse visto, se não tivesse contado,
ninguém saberia como o circo distingue do imaginado.

Você poderia, então, fazer o favor de se manifestar
e escrever seu comentário?

Obrigada.

Beijos, Red

























Behind the door. Marilyn and JFK at White House

"Eu me renovo quando fico sozinha"
Marilyn Monroe






Comentários aqui embaixo, ó  

drama alheio


Nina, que não é de escrever cartas de amor a quem se deve
- mas a quem se deve ou não se deve mesmo? -,
escreve pros amigos e as lê quem não deve.
Até explicar “o porco também ama”,
apanha, puxa o cabelo, rola na grama,
porque os porras dos amigos saem
com quem é pileque e faz mil dramas.

Dahmer, te quiero

o é só a capa do Ninguém Muda Ninguém que valeria um furto (entenda no post anterior). O livro inteiro vale o delito. Nesse vídeo abaixo, o escritor João Paulo Cuenca faz um merchandising do livro que o André Dahmer lançou ontem, no Rio.
Close nas páginas. Repeat no poema pra Carolina.
Dahmer, meu herói do dia.

do verbo afanar =D herrr

O desenhista André Dahmer lançou há poucas horas, no Rio, o livro Ninguém Muda Ninguém (ed. Flâneur). Tem poema, foto, desenho e umas coisas, lá. O que eu quero mesmo é a capa do livro, que já tá valendo pra contentação do dia.

Ele teve a moral de pintar a mão as 600 capas da primeira edição, cada uma diferente, pra vernissage de ontem, num boteco. Custa R$ 79, razoável, até.

Se eu estivesse lá, roubaria um desses exemplares pra mim:





O cara vende as criações dele, inclusive os livros A Cabeça é a Ilha, Malvados e O Livro Negro, pelo blog.


Abaixo, um vídeo dele desenhando uma dessas capas:



Arrepio dessa canetinha.

cheeta's confessions



Às vezes eu me sento ridícula.
Noutras eu me sinto ridícula.
Você não se sente?
Eu só me sinto.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quadrado erótico

Seguindo a ideia de postar feitos interessantes de/sobre pessoas idem, hoje tem minicontos do jornalista Adriano Quadrado. (êêê!)
Pedi ao AQ um texto dele, algo estimulante, já que o blog é Cafffeinee. Imagination mode on!
Aproveito e informo que AQ recomeçou seu blog: www.quadrado.com, com textos ótimos. E é o primeiro endereço do blogroll deste blog, ha! Quadrilha!



Ilustra: capturei a imagem no baubauhaus, mas não consigo identificar o autor. Se alguém souber, por favor, me diga para colocar os créditos devidos. Obrigada. =D



Minicontos eróticos (interruptos)


I.
Seu minhoco e dona minhoca foram se deitar. Nu, seu minhoco foi surpreendido pela cara de nojo de dona minhoca: "que cousa, darling, tu tens uma vulva!". Mas seu minhoco, que era um italianão trocadilhista bem humorado e gordo, não deixou por menos: "e tu, nega, que também tens uma bela duma minhoca no meio das partes". Dona minhoca, a de cima, se pôs a chorar.


II.
- Vem cá, docinho, fincaqui.
- Que horror!
- Ah, vá, deixadonda.
- Que lixo!
- Pô, gostadeu.
- Que Tadeu?



III.
A Obscena Senhora H acordou suando e deu uma bica furiosa na porta de entrada da "Casa do Sol". Assoviou para chamar seus dois mil e setecentos cachorros famintos. Vinha toda nua e, na cona, trazia biscoitos caninos convidativos, olorosos e suculentos. Sim, ela se cansara da solidão e queria desesperadamente ser amada. Mas acabou soterrada por dois mil e setecentos cachorros famintos antes de poder gozar.


IV.
- Ai, ai, ai. Aí não, aí dói.


V.
- Amor, larga dessa idiotice de miniconto erótico e vem me fazer feliz na prática.
- Porra, querida, não fode! Sou um escritor.
- É nada. É só um boca suja sem graça.
- Catso, assim eu brocho!
- Novidade...



VI.
Paulo Salim, 79 anos e 446 milhões de patacas roubadas aos panacas, não se cansa de sacanagem. Veste a bota de "gatinho manhoso", o espartilho vermelho e a máscara de urso. Gosta de variar e combinar suas fantasias. Mas está sozinho e tem uma pedra fria no lugar do coração.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cães hipermodernos

 

Simei Morais

Não era mais o mesmo, nem eles. Ela se mudou primeiro, visitava-nos uma vez por mês - se estivesse de namoro, a cada trimestre.

Ela voltou, ele se foi. Tive problema grave de pele, exames, tomografias, injeções, pomadas. Nada de sol, que eu gostava tanto.

Sentia-me de novo um cão nos feriados prolongados, que país amado esse de longas sextas-feiras. Todos em casa, a mãe no fogão, eu na porta. Miolos de pão toda vez que me atrevia para dentro.

Aos domingos, porém, subiam manhãs de amargura. Segundo a segundo o relógio atraía a partida.





Fotos do britânico Martin Usborne na exposição MUTE: the silence of dogs in cars.
Usborne clicou cães sozinhos dentro de carros, enquanto seus donos se ocupavam em qualquer outro lugar. O aspecto melancólico não é à toa: o autor tentou identificar características humanas nos peludos.

O texto foi inspirado no comportamento de um cão próximo, muito próximo, durante a vida universitária de seus donos.

Menalton toma café

Ah, o Menalton Braff é lindo. Hoje, conversando sobre o novo livro dele, Bolero de Ravel (veja abaixo), falei do blog, que é recente, coisa e tal.

Quando ele falou que iria ler, me deu vergonha no estômago. "Olha, Menalton, tá meio esquisitão, ainda. Tô tentando dar uma cara e um coração pra ele, que tá meio louco, sabe?"

Menalton é generosidade pura. "Ah, não, Simei, sem tirar a loucura do blog. Conhece, do Fernando Pessoa? Sem a loucura, que é o homem/ mais que besta sadia/ cadáver adiado que procria? Eu achei lindo."

Ahhh, o que posso dizer, meldeos?

Menalton vai lançar Bolero de Ravel (Global Editora) no dia 24 na Livraria da Cultura, em São Paulo, e dia 27 no Templo da Cidadania, em Ribeirão Preto. Em breve, teremos algo aqui sobre o livro dele. Êeee

Ori, le sartrien - ou le sartrean?


Oriana, amiga talentosa, estréia em solo paulistano na próxima semana. Vai de Huis Clos, de Sartre. O texto, o segundo para teatro que o filósofo escreveu, leva as questões existencialistas que marcaram sua obra. Você existe antes da sua essência?

Oh, Sartre, vem aqui, e depois a gente senta ali na Aspicuelta pra você me explicar melhor essa história de existência x essência. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Mathieu Bresson e seus pulos na fotografia


Simei Morais

Matheus Urenha, malabarista. Fotógrafo esteta, meticuloso nos detalhes da imagem, tem de se virar na agenda desequilibrada do fotojornalismo diário, nem sempre com recursos mais adequados. E do “vai, vai, vai, vai, vai” (vai5) das pautas, ele chega ao jornal com uns materiais lindos.

O aquário dos fotógrafos no A Cidade, em Ribeirão Preto, fica no caminho do antigo fumódromo, “interditado” para esses fins depois que uma bituca rebelde causou um pequeno incêndio. Há dois anos, eu fazia a curva nessa pista quando vi a foto acima aberta na tela de um computador.

Ele acabava de voltar do show do Gil no Theatro Pedro II, a dez passos da redação. “Acho que você tem futuro”, brinquei. “Gostou? O que achou”, era mais ou menos a pergunta com que ele retrucava para, timidamente, pedir mais comentários sobre o trabalho que acabava de descarregar. Sempre assim, como se o êxito o envergonhasse, não apenas nessa, mas em outras ocasiões.

Para essa foto, Matheus estava a dez metros de Gil, num camarote ao lado do palco. O primeiro ingrediente era o personagem, cuja presença de palco e personalidade artística dispensam apresentações.


Ma che bello
Ele usou teleobjetiva para aproximar e trabalhou no diafragma da máquina para uma leitura bacana da luz. A beleza estava ali, naquele momento. “(A beleza) ficou no gesto (de Gil), na luz, nele meio escondido, na sensação de estar ao lado dele”, responde.

Cálculo ou sorte? Ele prefere a versão de Cartier-Bresson de que as boas fotos são “instantes dados” (the given instant), contrariando os editores que apostavam no “the decisive moment”, como se houvesse controle total sobre a imagem. “Algumas coisas simplesmente acontecem, um detalhe da geometria que não se esperava, um olhar, um gesto que passou do instante mais evidente."

Ok, foi como Romeu e Julieta. Matheus curte muito fazer retrato, fotografar personagem, e o Gil já vem pronto. Mas o rapaz manda bem também no dia-a-dia, em factuais. Tem foto dele que parece pintura, como a da freira, abaixo, num dia de Corpus Christi, em Sertãozinho.

Eis, então, sua conduta. No hard news, diz ele, a briga é sempre por conciliar estética e informação. Mas sempre que pode, Matheus economiza a segunda para enriquecer a fotografia. “É uma discussão delicada, mas estética é a graça, não acha? A diferença não é a forma, afinal?”

Eu acho, Matheus. Por isso trouxe suas fotos aqui.



De cima para baixo:

Gilberto Gil no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, em novembro de 2008;

Corpus Christi em Sertãozinho, 2007;

ao lado, o próprio Matheus Urenha.

Todas as fotos foram roubadas do facebook dele.


Update necessário:
O Cafffeinee é neófito, ainda. Quero postar aqui um texto sobre cada amigo meu que faz coisas inteligentes, de qualquer área, e isso inclui os demais fotógrafos com quem trabalhei. FLPiton, JFPimenta, WeberSian, Johnny "Luxo" Santos e Joba Cury, minha irmã do coração, têm cada um uma peculiaridade e alguma história que compartilhei. Meu desejo é fazer o mesmo com eles. E os da Foia também, como o Joel, que é mega. Piton, inclusive, fez umas fotos lindas do Gil em um Forró da Lua Cheia.

Comecei com o Matheus porque, sei lá, ele é meio ruivo, tem o parentesco (ha!). Em breve, outros amigos estarão por aqui. Aceito lembretes e sugestões. Obrigada =D

She found her courage in a change of scene

sábado, 6 de novembro de 2010

Morra a terceira pessoa

Vou esquecer a porra da terceira pessoa e escrever em primeira. A outra nunca esteve lá, eu que fui. Ela só me tira o verbo, eu que fiz. Não me dá nada, eu dou, eu sirvo. Nunca disse um "a", sou eu que converso.

A porra da terceira pessoa me rouba. Invadiu um lugar que não é seu, eu construí. A terceira pessoa pega as coisas que não são suas, são minhas, e joga ao léu como se nela estivesse o ponto de partida. O início está em mim.

A merda da terceira pessoa me mina, tolhe o raciocínio, me desperdiça. Poderia eu pensar mais? Ela mói o boi vivo e soca 20 arrobas no espetinho.

Bosta de terceira pessoa. Quem foi que viu? Quem amou? Você não vive nada.

Se enfeite, primeira pessoa. Trôpega, aposto que vai se firmar. E se continuar manca? Foda-se. Vai mancar livre e feliz.